O setor industrial desempenha um papel muito relevante na economia portuguesa. Em termos agregados, por vezes a sua crescente importância na estrutura produtiva não é refletida quando fazemos uma “análise simplista” dos dados – por exemplo, o peso do VAB industrial tem-se mantido e até mesmo regredido se recuarmos ao valor que assumia no início deste milénio e, ainda com maior significado, na década de noventa. Em parte, isto tem muito a ver com uma crescente externalização de atividades, que deixaram de estar “contabilizadas” na indústria, e muito em particular com a transformação no próprio modelo de negócio industrial – a chamada “servitização”, em que os fabricantes não oferecem apenas bens, mas sim soluções, isto é, “pacotes de bens e serviços”. É inegável, as novas tecnologias estão a potenciar e a acelerar alterações, por vezes disruptivas, no “modelo de negócio industrial” e de outras atividades económicas.

A indústria, em particular a indústria transformadora, sendo por excelência um setor de bens transacionáveis e internacionalizáveis, dá um contributo positivo e muito significativo na trajetória da intensidade exportadora, que está perto de 44% do PIB, resultado de um progresso assinalável desde o início da presente década – onde não me canso de referir o papel das empresas – mas ainda distante da meta dos 50% que o país pretende alcançar. A competitividade da indústria nos mercados internacionais requer uma capacidade de assimilação da chamada Indústria 4.0, que envolve um vasto conjunto de novos conceitos e tecnologias, como a Computação em Nuvem, a Internet das Coisas, Big Data, Inteligência Artificial, Robótica e Blockchain. Estamos perante um processo complexo e abrangente, com impactos no conjunto de bens e serviços oferecidos, tendencialmente mais digitais, no funcionamento das cadeias de valor, no mercado de trabalho e nas competências requeridas. As vantagens são e continuarão a ser muitas. O desenvolvimento da economia digital é uma oportunidade para as empresas expandirem as suas operações, desenvolverem novos canais de negócio, atingindo novos fornecedores e clientes, inovarem nos processos, produtos e serviços, no marketing ou a nível organizacional, e também para colaborarem mais entre si.

Importa, assim, perceber como as empresas estão a usar o digital: É universal? Que vantagens? Que constrangimentos? Nesta matéria, sublinhava alguns resultados evidenciados pelo diagnóstico dado a conhecer no âmbito do Programa Nacional Indústria 4.0, onde se destacam três grupos distintos de empresas: i) empresas que lideram a implementação dos conceitos da i4.0; empresas com algum nível de sensibilização para o tema e que se encontram já a experimentar e a obter resultados; e empresas que não se encontram sensibilizadas para a i4.0 e não possuem internamente os recursos e competências necessários para efetuar este desenvolvimento de modo autónomo. Outra constatação é a de que estes distintos perfis coexistem em vários setores de atividade. Reconhece–se, porém, que a Indústria 4.0 traduz uma alavanca no sentido de uma gestão mais eficiente de recursos, num quadro tendencial e desejável de um modelo de economia mais circular – e, por definição, mais sustentável. A tudo isto, adicionava os resultados recentemente divulgados por um estudo da CIP, que aponta para a transformação digital da sociedade e da economia nacionais como uma enorme oportunidade, mas onde simultaneamente se admite o risco de destruição de empregos na indústria e no comércio, que pode ascender a 1,1 milhões, embora com criação noutros setores. Estima-se que cerca de “1,8 milhões de pessoas terão de melhorar competências ou mudar de emprego até 2030”.

Os resultados de todas estas análises são claros e a realidade empírica, que diariamente vou acompanhando, é também disso prova: Portugal e as empresas portuguesas têm rapidamente que se adaptar a estes tempos de mudança brusca e acelerada. O meu testemunho é de que algumas empresas portuguesas estão já no “pelotão da frente”, mas este não é o padrão do nosso tecido empresarial. É, pois, necessário um forte apoio à capacitação das empresas, e em várias vertentes, onde destaco o apoio à qualificação dos recursos humanos. Portugal compara muito mal no que tem a ver com os níveis de Educação/Formação. Em 2017, cerca de 52% da população portuguesa (entre os 15 e os 64 anos) tinha como nível máximo de educação o 3º Ciclo Ensino Básico (9º ano), que é exatamente o dobro da média europeia (26%). Aliás, no contexto dos países da União Europeia, o nosso país regista a percentagem mais elevada, que infelizmente neste caso corresponde à pior posição neste indicador. Este é um verdadeiro entrave e um verdadeiro desígnio a melhorar, para que a tecnologia possa ajudar as empresas portuguesas a crescer de forma sustentável e a fazer bons negócios.