Ao escrevermos uma carta ou um discurso, sabemos que a forma como nos expressarmos fará a diferença entre convencer ou não convencer, causar boa ou má impressão, atingir ou não o objetivo pretendido. Assim, muitos hesitam na hora de escrever ou falar, não por se sentirem inseguros quanto à mensagem a transmitir, mas por terem dúvidas quanto ao que será, afinal, um bom uso da língua, que impressione pela positiva.
Falar e escrever corretamente é mais difícil do que parece. Quanto mais atentos estivermos, mais perguntas nos ocorrem: «É correto dizer “repercursões”?»; «Com certeza é junto ou separado?»; «A pronúncia certa é “rúbrica” ou rubrica?»; «Devo escrever ter aceitado ou “ter aceite”?». Estas são apenas algumas das inúmeras questões que se podem colocar a quem quer exprimir-se com rigor. Porém, e ainda que pareça frustrante, ter dúvidas compensa: é o primeiro passo para falar e escrever cada vez melhor. Por isso, aqui fica um alerta sobre os vários domínios do uso da língua em que deve questionar-se com frequência.

1. Cuidado comos vícios de pronúncia!
Tenha atenção à forma como pronuncia certas palavras, sobretudo se ouvir dizê-las de formas distintas. Se nota, por exemplo, que há quem diga pejorativo e “perjorativo”, repercussões e “repercursões”, síndroma e “sindroma”, é altamente provável que uns estejam certos e os outros errados. Procure informar-se! É fácil consultar um dicionário online e esclarecer-se quanto à pronúncia das palavras em poucos segundos. E lembre-se: mesmo que já tenha ouvido muita gente a dizer uma palavra de certa forma (por exemplo, “rúbrica”), podem estar todos enganados!

2. Atenção às armadilhas ortográficas.
Se cometermos erros de pronúncia, é natural que essas incorreções se reflitam na escrita. Há quem ande uma vida inteira enganado relativamente a certas palavras, que sempre pensou que se escreviam “assim”: por exemplo, “carrocel” em vez de carrossel, “azelha” em vez de aselha e “vôo” em vez de voo. Note, ainda, que se os corretores automáticos ajudem muito, também agem contra nós. Os respetivos dicionários estão incompletos, não corrigem tudo. E às vezes, vá-se lá saber porquê, o corretor substitui palavras bem escritas por formas que, em determinadas frases, estão erradas (por exemplo, alterando formas verbais como encontrá-la e entregá-lo para “encontra-la” e entrega-lo”, que também existem, mas não podem ser usadas nos mesmos contextos).

3. Uma questão de género…
Em português, quase todos os nomes têm um género gramatical determinado: ou são masculinos, como o grama, o moral (estado de espírito), o hambúrguer e os collants, ou são femininos, como a entorse, a sentinela, a ênfase e a síndrome. Se não tem a certeza relativamente ao género de determinada palavra, mais uma vez, procure informar-se. E tenha atenção aos nomes comuns de dois géneros, que podem ser usados no masculino e no feminino, como o/a bebé, o/a personagem e o/a componente.

4. Perigo: verbos traiçoeiros!
Outro aspeto a ter em conta são as conjugações verbais. Há verbos que não se podem conjugar em todos os tempos e pessoas, como falir (não é correto dizer que “X empresas falem anualmente”), outros que se conjugam como os verbos que estão na sua origem, como intervir (uma vez que vem do verbo vir, devemos dizer interveio e não “interviu”) e há verbos que parecem conjugar-se como outros, que são parecidos, mas obedecem a regras diferentes, como precaver (que não vem de ver, nem de vir, pelo que não é correto dizer “precavejo” nem “precavenho”).

5. Quando as concordâncias são complicadas…
A construção das frases é outro domínio da gramática em que nos arriscamos a “meter o pé na argola”, sobretudo ao falar, pois o discurso oral está mais sujeito a erros causados pela pressa e pela prioridade que damos ao conteúdo, relativamente à forma. Neste âmbito, o cuidado deve ser redobrado, para não dizermos que “Há empresas melhor preparadas do que outras”, que certo funcionário é “um dos que mais produz”, ou que “há competências que são importantes desenvolver”.

6. Palavras que podem ser surpresas desagradáveis.
O significado que damos às palavras também é um aspeto do uso da língua em relação ao qual devemos estar atentos. Provavelmente, alguns dos vocábulos que emprega no dia a dia não têm, afinal de contas, o sentido que lhes atribui. Experimente, por exemplo, escrever uma breve definição de: cessão, despoletar, descriminar, renitente e solarengo. Depois, consulte um dicionário e descubra as diferenças!

7. Não foi isso que eu quis dizer!
Há ocasiões em que dizemos o oposto do que pretendemos, sem darmos por isso. O uso generalizado de expressões erróneas não ajuda, antes contribui para que vamos “atrás dos outros”, sendo inadvertidamente conduzidos para o desastre gramatical. Tenha cuidado com certas combinações de palavras, como “ir de encontro a”, “ter a haver”, “destrocar dinheiro”, etc. Mais uma vez: a dúvida é a melhor defesa contra o erro. Certifique-se de que está a falar com rigor, fazendo uma pesquisa rápida sobre essas expressões, por exemplo, no portal Ciberdúvidas da Língua Portuguesa.

8. Esse estrangeirismo é necessário?
Mesmo que na sua área profissional seja preciso usar certos termos “importados”, como briefing, outsourcing, holding e account, não abuse dos estrangeirismos, sobretudo quando é possível traduzi-los com exatidão em português. Antes de dizer deadline, mailing, template e performance, reflita: não será mais lógico (e favorável para a sua imagem perante os outros) optar por prazo, circular, modelo e desempenho? Afinal, quem não sabe traduzir as palavras estrangeiras que conhece revela um mau domínio da sua língua materna… 

9. Para quê voltar a repetir?
O risco de pecar por excesso também é elevado. Não é raro cedermos à tentação de sobrecarregar o discurso com redundâncias, como “encarar de frente”, “voltar a repetir”, “elo de ligação” e “adiar para mais tarde”. Evite os pleonasmos, que denunciam falta de atenção e de rigor. Até porque as pessoas recebem inúmeros estímulos e a sua capacidade para se concentrarem exclusivamente num texto ou discurso é limitada e depende do interesse que este lhes suscitar… Se o atafulharmos com palavras a mais, a probabilidade de os leitores ou ouvintes “desligarem” será maior.

10. Subtilezas que fazem toda a diferença.
Há vários motivos para se dizer que “a língua é traiçoeira”, sendo compreensível que nos baralhemos entre ambiguidades, atualizações, regras e exceções. A título de exemplo, refira-se a dupla grafia (entre o português de Portugal e o do Brasil), uma das “dores de cabeça” de todos aqueles que tentam ir ao encontro das expectativas dos destinatários. Independentemente das mudanças impostas pelo famigerado Acordo Ortográfico (e que muitos ainda se recusam a aceitar), a verdade é que, se escrevermos para um público brasileiro, deveremos optar por aluguel, contato, de fato, planejar e registro. Todavia, se os destinatários forem portugueses, o correto já será aluguer, contacto, de facto, planear e registo. De resto, o português de Portugal já é suficientemente complexo… Portanto, quanto mais cuidado tiver, menor será o risco de tropeçar na gramática!