No ano passado abriu o Museu do Fracasso, em Helsingborg, na Suécia, onde é possível ver uma coleção de vários objetos inovadores que considera verdadeiros flops. Porque decidiu abrir este museu?
Por duas razões. Uma era porque queria comunicar a importância de aceitar o fracasso na procura pela inovação. O progresso precisa de muita experimentação e exploração, e nessas fases o fracasso é inevitável. A outra razão foi porque simplesmente cansei-me de ver a sociedade e os meios de comunicação social a concentram-se só no sucesso. Achei que o fracasso precisava de mais atenção.

De onde surgiu a ideia de criar este museu?
A ideia de abrir o museu surgiu depois de ter visitado o Museum of Broken Relationships, em Zagreb, na Croácia. Foi no verão de 2016 e eu adorei o espaço!

Pode dar alguns exemplos de objetos expostos no museu e explicar a razão de os considerar um fracasso?
Claro! O Google Glass, por exemplo, é um dos produtos que podemos encontrar no museu. Em 2013, quando a Google lançou estes “óculos inteligentes” com uma câmara incorporada, controlo de voz e um ecrã revolucionário, as expectativas eram muito altas. O gadget futurista ganhou a atenção de vários entusiastas por tecnologia, que pagaram cerca de 1500 dólares pelo dispositivo. Mas não passava de um protótipo caro e que não correspondia às necessidades dos utilizadores. A tecnologia não funcionou bem. Além disso, a câmara incorporada levantou algumas questões sobre privacidade. As pessoas não gostaram da ideia de serem filmadas a qualquer hora e em qualquer lugar e o Google Glass chegou a ser banido em vários locais. Em 2015, a Google anunciou que ia deixar de produzir o Google Glass.
Outro objeto exposto é a câmara de vídeo Betamax da Sony, lançada em 1975. Quando a JVC lançou o formato VHS, um ano depois, começou uma guerra de formato de cassetes de vídeo que durou uma década.A Betamax tinha melhor qualidade que a VHS, mas também era mais cara. A VHS podia gravar um filme completo, enquanto a Betamax estava inicialmente limitada a uma hora. Enquanto a Sony se recusou a licenciar o formato para outras empresas, a JVC estabeleceu parcerias. Em meados da década de 1980, a VHS ganhou a batalha. Esta história clássica sobre uma inovação tecnológica mostra que ter a excelência na técnica e ser o primeiro no mercado não são suficientes. A Sony aprendeu com o seu fracasso.
Mais um exemplo tecnológico: o assistente digital pessoal Apple Newton lançado há 25 anos pela Apple. O design elegante e o ecrã tátil com reconhecimento de caligrafia faziam do dispositivo uma inovação promissora. Mas o reconhecimento de caligrafia era lento e impreciso. Chegou até a ser ridicularizado na série “The Simpsons”. O Newton era uma ideia inovadora, mas com uma tecnologia ainda imatura – um produto incompleto que foi lançado cedo demais. Steve Jobs acabou com o Newton quando retornou à Apple em 1997.

Como seleciona os objetos para o museu? Qual é o seu critério?
Tem de ser uma inovação, um novo produto, serviço, tecnologia, que seja um fracasso de alguma forma, geralmente um fracasso no mercado. Ou, em outras circunstâncias, um fracasso como “um desvio dos resultados esperados ou desejados”. Depois, escolho os objetos porque os achei interessantes. Eu sei… é muito subjetivo.

“As organizações precisam de melhorar a sua atitude em relação ao fracasso se pretendem ser mais inovadoras”

Alguém já contestou a escolha dos objetos no museu? Pode dar um exemplo?
Sim, geralmente as pessoas que discordam não se preocuparam em entender a definição de fracasso na ciência organizacional. Só porque um produto ainda está disponível no mercado não significa que não seja um fracasso. O fracasso é sempre avaliado tendo em conta o contexto e as expectativas. O Segway é um bom exemplo. Quando surgiu em 2001 foi considerado uma maravilha da tecnologia. Como o Segway ainda se encontra à venda, há quem se interrogue sobre o facto de estar exposto no Museu do Fracasso. Uma falha é definida como um desvio dos resultados esperados e desejados. As expectativas para o Segway eram enormes: “o Segway será o produto mais rápido na história a chegar aos mil milhões de dólares em vendas”, “as infraestruturas da cidade serão planeadas em torno do Segway”,“o Segway será mais importante
que a Internet”. Mas como meio de transporte, o Segway foi um completo fracasso. Tornou-se um fracasso comercial por ser muito caro, pesado e também um pouco silly. Hoje em dia é mais usado por grupos em atividades de lazer ou por seguranças em centros comerciais.

Algum dos objetos expostos no museu levou à criação de uma nova inovação?
Boa pergunta. Por exemplo, o Apple Newton mencionado anteriormente deu origem ao desenvolvimento do iPod e do iPad.

Porque considera o fracasso tão importante? Acredita que seja essencial ou um processo natural para a inovação, para desenvolver novas tecnologias?
A maioria dos projetos inovadores fracassam, 50 a 90%, dependendo da indústria. E as organizações precisam de melhorar a sua atitude em relação ao fracasso se pretendem ser mais inovadoras. A maioria não admite nem se revê nos seus fracassos o que torna impossível aprender o que quer que seja com os mesmos. Eu não digo que devamos celebrar o fracasso, só quero que o aceitem. Devemos aceitar o fracasso quando queremos inovar e progredir.

Qual foi o seu maior fracasso?
O meu maior fracasso é não levar o dinheiro em consideração. Sou muito bom a iniciar projetos interessantes, mas estes acabam por desaparecer por falta de fundos. Espero que a lição que aprendi com os meus erros do passado ajude-me a manter o Museu do Fracasso aberto por muitos anos.

Atualmente o Museu do Fracasso tem dois espaços abertos: um em Los Angeles, na Califórnia, e outro em Helsingborg, na Suécia, que abre dia 2 de junho.