Dizermos sim e não tem uma importância imensa na nossa vida, tanto na relação connosco mesmos como com os outros. E dizermos não em ambiente profissional também: na forma e no momento certo, dizer-se não é uma ferramenta de trabalho.
Dizermos sim a todos é dizermos não a nós mesmos. E esse padrão pode prejudicar tanto a nossa saúde psicológica como a nossa produtividade. Ao longo dos anos, tenho trabalhado com muitas pessoas com problemáticas ligadas à ansiedade e se me focar na sua vida profissional, é-me fácil observar que esta estava na origem e manutenção do sofrimento de muitas delas. Trabalhamos muito e muitas horas. Arrisco dizer que um sim no trabalho não deve obrigar a que digamos não à nossa família e amigos. E a nós mesmos.

Voltando ao trabalho, se aceito solicitações que vão contra a minha organização de trabalho, irei criar uma “tensão interna”. Isto é, se digo sim muitas vezes quando a minha necessidade era dizer não, estou a contribuir para o aumento da minha ansiedade – olhando para esta como um mecanismo emocional de alerta que procura restabelecer o equilíbrio entre solicitações exteriores e as minhas necessidades e recursos emocionais. Imprevistos, urgências, mudanças, reestruturações são, todos eles, processos naturais e frequentes nas organizações modernas. O ritmo é, de facto, elevado e a globalização da informação disseminou a comunicação de forma quase instantânea. O que é magnífico – se não nos perdermos nela.

Muitos de nós vivemos em “piloto automático”, sem controlar a nossa vida e a sermos controlados por ela. Assim, o processo ansioso tende a focar-nos, permanentemente, no futuro. Estarmos no momento presente de forma plena tornou-se, cada vez mais, um bem escaço e precioso! Dizemos que sim, muitas vezes, sem pensar se podemos dar resposta ao que nos foi pedido. “É só mais isto”, dizemos nós aos outros (e a nós próprios!). Queremos ser vistos como competentes, infalíveis, ambiciosos. Queremos agradar e ir sempre mais longe. Temos de estar em todo o lado.

Curiosamente, dizermos não pode contribuir para a produtividade de uma organização. Porque pode apontar para as reais prioridades e contribuir para uma adequada gestão dos recursos humanos e organizacionais. É que dizer-se não pode então ser um comportamento assertivo de especial utilidade: quer seja perante um chefe, um cliente ou um colega. Muitos de nós evitam o não para impedir algum conflito e, até, possíveis represálias. Uma das áreas que me tem mais interessado é o estudo dos riscos psicossociais e do assédio moral (o mobbing). Nele encontramos formas de pressão sobre as pessoas que as deixam, demasiadas vezes, sem capacidade de dizer não.

No essencial, devemos dizer não e sustentar essa opção. Fazendo uso de factos concretos que possam ser alvo de análise e que contribuam para os objetivos da organização. Não devemos personalizar: o não deve cingir-se a ideias, projetos e atividades e não deve estar ligado à pessoa. Mais vezes do que podemos pensar, dizer não pode transmitir uma imagem de elevado profissionalismo: dizer não a um chefe pode demonstrar que temos um papel ativo e interessado na vida organizacional; dizer-se não a um colega pode levar a que ele aprenda a realizar a tarefa que nos pede sempre; dizer-se não a um cliente pode constituir uma prova de sinceridade e integridade (a título de exemplo, este pode pretender um produto que, perante o prazo proposto, nunca ficará com a qualidade exigida).

Como vimos, um não com sentido constitui tanto uma forma de valorização da pessoa e do profissional que somos como um momento de aprendizagem organizacional inegável. Sempre que adequado, pratique-o. Estou certo que verá bons resultados.