Mais um ano em que o universo das PME Excelência aumenta. De acordo com os últimos dados, em 2014, o número de PME com este estatuto cresceu 67%. A que se deve este aumento?
Fundamentalmente ao mérito das empresas e à qualidade dos desempenhos demonstrados pelo segmento mais competitivo das nossas PME – as PME Líder, que está na origem do universo das PME Excelência, e que também cresceu relativamente ao ano anterior. São empresas de perfil superior que evidenciaram sinais de crescimento em praticamente todos os indicadores de desempenho, com valores muito acima das médias nacionais, e que têm sabido manter a sua capacidade competitiva em contextos macroeconómicos menos favoráveis como os que atravessamos, e que constituem, nos seus setores e nas suas regiões, um motor da economia, do emprego e das exportações nacionais. São empresas fortemente orientadas para o crescimento.

A crise está ultrapassada ou as PME estão a conseguir dar a volta por cima?
Se nos focarmos nos resultados obtidos pelo segmento das PME Excelência, o que verificamos é que as empresas conseguiram aumentar substancialmente o seu ativo em relação ao ano anterior, ao mesmo tempo que reforçaram os seus capitais próprios e evidenciaram melhorias significativas nos seus rácios de produtividade e de rendibilidade, fundamentais à sustentabilidade do seu crescimento. A sua resiliência foi notável, disso não temos dúvidas. Mas temos a certeza que também souberam aproveitar os apoios públicos que tiveram à sua disposição para investir na melhoria da sua capacidade competitiva e de atuação em mercados externos.
Mais de 60% das PME Excelência distinguidas são exportadoras e conseguiram aumentar em média 16% o valor das suas exportações, um resultado aproximadamente duas vezes e meia acima dos valores apresentados pela estrutura empresarial nacional, e que, por si só, nos diz muito sobre a importância deste segmento de empresas e do seu contributo para a dinâmica de crescimento da nossa economia e do nosso comércio externo. Estes são bons sinais para a evolução da economia, são resultados importantes para este segmento de empresas, sendo fundamental continuar a apostar na capacitação competitiva das nossas empresas, na diversificação de mercados e no alargamento da base exportadora.

“Mais de 60% das PME Excelência distinguidas são exportadoras e conseguiram aumentar em média 16% o valor das suas exportações”

Para alcançar o estatuto de Excelência, uma pequena e média empresa tem de ser antes distinguida como PME Líder. Quais os principais critérios em ambas as distinções?
Para fazerem parte do universo das melhores PME, para além de serem certificadas pelo IAPMEI como pequenas e médias empresas, têm que integrar os escalões de rating superiores e corresponder a determinadas exigências, em termos de autonomia financeira, volume de negócios, com resultados líquidos e EBITDA positivos. As PME Excelência são as melhores das melhores.
Para serem PME Líder, em 2015, as PME têm que estar classificadas num nível de rating equivalente aos melhores cinco níveis de rating do Sistema da Garantia Mútua, ter obtido resultados líquidos positivos em 2014, EBITDA positivo nos dois últimos anos, um nível de autonomia financeira superior ou igual a 30% e um volume de negócios superior ou igual a 1 milhão de euros no último exercício, com um número de trabalhadores superior ou igual a oito. Para atingirem o estatuto de PME Excelência 2015, as empresas terão que enquadrar-se nos três níveis de rating superiores, demonstrar uma autonomia financeira superior ou igual a 35%, não ter crescimento negativo do volume de negócios face ao exercício anterior, e apresentar níveis de rendibilidade dos capitais próprios e do ativo iguais ou superiores a 10% e 3%, respetivamente.

Qual o objetivo do estatuto PME Excelência e PME Líder?
Os estatutos PME Líder e PME Excelência têm como principal objetivo segmentar e dar notoriedade às pequenas e médias empresas que apresentem os melhores perfis de desempenho, conferindo-lhes um selo de reputação para utilizarem na sua relação com o mercado e ao mesmo tempo criando-lhes condições otimizadas de financiamento para o desenvolvimento das suas estratégias de crescimento e de reforço da sua capacidade competitiva.

Quais as vantagens e benefícios para as PME?
A vantagem principal é o capital de reputação e de notoriedade que estes estatutos trazem às empresas, nas relações com as suas redes de stakeholders, sejam eles clientes, fornecedores, o sistema financeiro ou o Estado. As relações de confiança são fundamentais nos negócios e o estatuto PME Excelência é um bom cartão-de-visita, que atesta a credibilidade das empresas.
Para além do selo de qualidade que está associado aos estatutos, as empresas beneficiam também de acesso facilitado a financiamento, bem como a serviços diversificados protocolados com uma rede de parceiros do IAPMEI.

Em que resultados, as PME mais se destacaram este ano?
De uma maneira geral, em comparação com os últimos dados disponíveis da análise de empresas não financeiras do Banco de Portugal, verifica-se que há um grande desvio da média nos resultados apresentados pelo segmento das PME distinguidas. Por exemplo: as PME Excelência 2014 apresentaram crescimentos médios nas vendas na ordem dos 15%, quando a média nacional se situou no 1%; viram o seu EBITDA aumentar em quase 28% em comparação com os 12% da média nacional; e aumentaram as suas exportações em 16%, duas vezes e meia acima dos resultados médios obtidos pelas empresas nacionais. Outros indicadores – onde a variação anual deste segmento de empresas é mais visível – são os valores das rendibilidades, dos capitais próprios, do ativo e das vendas, que se registaram acima dos 40%, com padrões médios de autonomia financeira superiores a 54%, valores que confirmam o perfil superior de desempenho destas empresas.

As melhores PME estão concentradas na cidade do Porto. Porquê, na sua opinião?
O Norte é tradicionalmente uma região com uma forte concentração empresarial, que apresenta um contributo relevante para a economia e as exportações nacionais, e é natural que as melhores PME também espelhem esta realidade. Não é por acaso que em três distritos, Porto, Aveiro e Braga, estão concentradas mais de 64% das PME Excelência 2014. Tendo por base os resultados do último quadro comunitário de apoio, e concretamente os apoios concedidos pelo IAPMEI, as empresas da região Norte estão à frente no montante do capital investido, com um valor superior a 2 mil milhões de euros, e captaram mais de 40% do total do financiamento atribuído, o que reflete o dinamismo e a aposta das empresas na sua capacitação em fatores competitivos que lhes confiram uma maior eficácia de atuação e afirmação em mercados internacionais.

Do universo de PME em Portugal – que representam 99,9% do tecido empresarial e são responsáveis por 60,9% do volume de negócios (segundo os últimos dados do INE) – menos de duas mil alcançaram a excelência este ano. Na sua opinião, o que é fundamental para que uma PME seja excelente e líder?
Ter uma liderança de gestão forte e centrada em estratégias de crescimento sustentáveis e sustentadas num sólido conhecimento do mercado e das suas mutações. Ter a capacidade de inovar, diversificar oferta, antecipar tendências. E procurar parcerias para complementar competências internas e ganhar a dimensão necessária para uma afirmação mais eficaz, tanto na vertente nacional como internacional.

“(…) para as empresas recém-criadas, os primeiros cinco anos são críticos em termos de sobrevivência, mas isso não deve ser visto como um obstáculo ao empreendedorismo.”

Apesar de existir um grande número de PME no País, ainda assim muitas não sobrevivem mais de dois anos, segundo um estudo do ISCTE. Na sua opinião, porque acha que isso acontece: falta de apoio, má gestão?
De facto, para as empresas recém-criadas, os primeiros cinco anos são críticos em termos de sobrevivência, mas isso não deve ser visto como um obstáculo ao empreendedorismo. É um fenómeno normal, que está para além das fronteiras nacionais, e que deve incentivar a perceção dos principais fatores que podem estar associados a estas situações, por forma a minimizar impactos e a promover aprendizagens a partir de casos que não tiveram o sucesso pretendido.
A criação de um negócio envolve sempre risco, mas o fundamental é que seja um risco calculado, assente num bom modelo de negócios, associado a competências técnicas e de gestão, a um bom conhecimento do mercado e a um plano de financiamento adequado, para além do estabelecimento de uma sólida rede de stakeholders. O acompanhamento por quem tem um conhecimento profundo do setor, numa primeira avaliação e pré-teste de uma ideia para um novo negócio, pode ser muito importante para um jovem empreendedor. E foi justamente com este objetivo, que o IAPMEI criou a Bolsa Nacional de Mentores, tentando aproximar jovens empreendedores que estão a dar os primeiros passos na criação de um negócio próprio, a empresários e profissionais especialistas que os podem orientar e aconselhar nos seus projetos, partilhando a sua experiência, ajudando-os a repensar e a robustecer as suas ideias, e a acompanhá-los na sua implementação.

Como o IAPMEI sabe que empresas deve apoiar?
O IAPMEI apoia transversalmente qualquer empresa, em qualquer estádio do seu ciclo de vida, em função do enquadramento da sua atividade (projetos de turismo ou do setor agrícola são, por exemplo, acompanhados por outras entidades), e de forma alinhada com os objetivos de política pública em matéria de inovação, competitividade e abordagem ao mercado global.
O nosso objetivo é apoiar empreendedores e empresas nacionais no seu esforço de capacitação competitiva, oferecendo um conjunto de valências em domínios complementares, que vão desde a assistência técnica, integrando diagnóstico de competências, capacitação e aconselhamento especializado, apoio ao empreendedorismo e às fases iniciais do arranque de novos negócios, com promoção de mentoria e soluções de financiamento, incentivos ao investimento empresarial em reforço de competências competitivas que facilitem a afirmação em mercados internacionais, para além de soluções específicas que ajudem as empresas a ganhar dimensão, através do ensaio de novas metodologias de trabalho colaborativo, associação a clusters competitivos, dinamização de processos de transmissão, de fusões e aquisições, e gestão de instrumentos na área da revitalização empresarial.

“Os portugueses são culturalmente resilientes e pragmáticos e acredito que estes são dois atributos importantes também aplicados no âmbito da gestão empresarial.”

É fácil liderar uma empresa em tempos de crise? Os portugueses são líderes desenrascados?
Depende das condições em que a empresa se encontre em termos de solidez financeira e da sua capacidade estratégica e de know-how para se reajustar e adaptar a novos caminhos e procurando novos mercados. Os portugueses são culturalmente resilientes e pragmáticos e acredito que estes são dois atributos importantes também aplicados no âmbito da gestão empresarial. E, vale a pena dizer, esses dois atributos têm condições para sustentar comportamentos inovadores.

O que as PME Líder podem ensinar às grandes empresas?
As PME Líder podem ter a seu favor, pela flexibilidade que lhes advém da sua dimensão, uma maior facilidade e rapidez na correção de rotas estratégicas e na implementação da mudança, que em determinadas fases podem ser mais-valias importantes para a obtenção de resultados num menor espaço de tempo. Saliento flexibilidade e foco no mercado.

Um conselho para uma PME que queira ser líder.
Saber manter-se competitiva num mercado alargado, afirmando a sua individualidade pela qualidade e diferenciação dos produtos ou serviços que oferece, com uma aposta na inovação, na subida na cadeia de valor, eventualmente em marcas próprias, procurando ganhar dimensão através da ligação a polos competitivos e a parceiros estratégicos que lhe proporcionem o acesso a informação e a tecnologia e ajudem a consolidar a sua presença em mercados externos.

Quais as principais planos e iniciativas do IAPMEI para este ano?
O novo quadro de incentivos às empresas, o Portugal 2020, que tem neste momento a decorrer os primeiros concursos para investimentos individuais de empresas, designadamente no âmbito da inovação produtiva, empreendedorismo qualificado e criativo, qualificação e internacionalização. Sendo o seu lançamento recente não o posso deixar de destacar: este é o momento do investimento. As PME vão ter à sua disposição neste novo quadro comunitário mais de 8 mil milhões de euros de apoio ao reforço das suas estratégias de competitividade e internacionalização até 2020.
Ainda ao nível do financiamento, fechámos recentemente a 2.ª fase do programa Comércio Investe, uma medida especialmente direcionada para apoiar a modernização e a requalificação do comércio local, com uma dotação de 20 milhões de euros de incentivos e outro tanto de linha de crédito. E protocolámos a linha de crédito PME Crescimento 2015, com uma dotação de 1,4 mil milhões de euros, que tem associada quatro linhas específicas destinadas respetivamente a micro e pequenas empresas (com 300 milhões de euros), fundo de maneio e investimento (com 800 milhões de euros), empresas de elevado crescimento (com 100 milhões de euros), e crédito comercial a exportadoras (com 200 milhões de euros), já a funcionar desde 1 de abril, bem como a linha de crédito à revitalização, num montante de 50 milhões de euros.
Temos vindo, em conjunto com outras entidades, a trabalhar ainda numa linha de crédito direcionada para operações em Angola. Está também a ser preparada uma linha numa área que nos preocupa particularmente e que é a da capitalização de empresas.