Bons Negócios

"Precisamos de mais pessoas disruptivas”

Experiência  |   09 Jun 2016

Filha de antropologistas, Alexa Clay conviveu de perto e durante anos com pessoas ditas "incomuns" e de diferentes tipos de cultura. A mãe investigava pessoas que julgavam terem sido raptadas por extraterrestres. O pai passou muito tempo na selva amazónica a trabalhar com grupos indígenas para criar mercados sustentáveis para pequenos produtores. Não admira, por isso, que a investigadora de 32 anos confesse hoje gostar de falar com pessoas, com todo o tipo de pessoas, mesmo aquelas que nos façam sentir desconfortáveis. No ano passado lançou um livro - "The Misfit Economy", em português "A Economia dos Desajustados" - que reúne uma série de histórias sobre gangsters, piratas e hackers, pessoas que considera serem as maiores inovadoras do mundo. Durante três anos entrevistou mais de 2 mil pessoas para este livro, escrito em parceria com Kyra Maya Phillips. Ambas defendem que os empresários têm muito a aprender com os protagonistas desta economia informal. Sobre inovação e empreendedorismo. E porquê? Porque estes desajustados têm mais liberdade para serem criativos. Para criarem e testarem ideias.

No ano passado publicou o livro "The Misfit Economy", onde defende que há pessoas inovadoras na economia informal. Pode explicar a base do seu pensamento sobre o tema?
A ideia do livro começou como uma forma de ampliar o retrato tradicional dos empresários, como os de Silicon Valley, e observar como os protagonistas do mercado negro e da economia informal (como por exemplo, gangsters, piratas, hackers) muitas vezes aplicam uma mentalidade empreendedora no seu trabalho. Em alguns países, mais de 70% da sua atividade económica acontece na economia informal e somando-as o valor desta economia global ultrapassa os 10 triliões de dólares. De alguma forma, por mais que seja considerada uma "economia marginal", é também a economia principal em muitas partes do mundo. Os desajustados que retratamos no livro são uma mistura de inovadores do mercado negro e informal, como líderes de gangs, piratas de propriedade intelectual na China e agricultores Amish, mas também desajustados como artistas boémios, ativistas e desajustados que trabalham em negócios formais, mas que tentam transformar o "interior" das empresas com novas agendas sociais e ambientais.

Pode dar mais alguns exemplos de desajustados que surgem no livro?
Muitos dos desajustados sobre os quais escrevemos estão a tentar deixar uma marca no mundo. Por exemplo, King Tone, o antigo líder do New York City Latin Kings (um gang de rua hispânico), trabalhou para mudar o ADN do que significa ser um gangster, tentando criar uma "mudança de gestão" para os Latin Kings se tornarem mais um movimento social, como os Panteras Negras, em vez de desenvolverem só atividades criminosas. De forma semelhante, outro caso apresentado no livro, é Cat Hoke da Defy Ventures que trabalha com pessoas ex-condenadas para ajudá-las a transformarem as suas habilidades no mundo do crime em empreendedorismo formal. Defy Ventures funciona um pouco com uma incubadora para ex-condenados, reconhecendo que muitos deles têm aptidões empresariais incríveis, mas face às condições em que nasceram acabaram por operar no lado errado da lei. Também escrevemos sobre os desajustados mais tradicionais como David Berdish que trabalhou na Ford Motor Company durante grande parte da sua carreira e tentou levar a empresa a desenvolver melhores práticas pelos direitos humanos e a criar modelos de negócios alternativos para além de produção de automóveis, como por exemplo, soluções de transportes mais sustentáveis.

Quantas pessoas entrevistou e como foi feita a seleção dos casos?
Fomos a mais de 15 países diferentes para entrevistar desajustados. Conseguimos mais de 2 mil case studies. Acho que só na Índia entrevistei cerca de 200 pessoas. E o projeto levou cerca de três anos. Acabámos por escolher para o livro os desajustados que estão a transformar a cultura e a demonstrar criatividade e inovação. Foram selecionadas as histórias das pessoas que conheci que mais me inspiraram.

Todos nós temos um pouco de desajustados?
Toda a gente tem um desajustado dentro de si, sim! Mas muitas vezes na nossa vida profissional sentimos que temos que camuflar ou conformarmo-nos com um papel, de quem é suposto sermos. Isto é desgastante. E é parcialmente por isso que os nossos trabalhadores estão exaustados e desmotivados. Acho que a nova economia na qual estamos a entrar dá mais reconhecimento aos nossos ativos únicos e aproveita as nossas forças e paixões individuais. As pessoas não olham mais para os empregos como fábricas e não têm que se transformar em peças de engrenagem. Se queremos mais ideias disruptivas no mundo, então precisamos de mais pessoas disruptivas, o que exige um comportamento mais rebelde. Criar esquemas, piratear, provocar e articular são alguns dos princípios que acreditamos que os empreendedores e empresários podem usar como inspiração.

Se um empresário tivesse que viver um dia como um líder de um gang, acha que conseguiria gerir o negócio? Qual a maior lição que um empresário poderia aprender?
Acho que a gestão de risco é fundamental para qualquer um na economia do mercado negro, ser capaz de lidar com situações de crise, principalmente. Então, manter a calma e inspirar confiança, mesmo quando as coisas podem correr mal, é "super" importante. Um líder de um gang é também escolhido por ser inspiracional ou por inspirar medo. Ou seja, temos que trabalhar para cultivar carisma e para incentivar as pessoas a permanecerem fiéis.

O que os gestores do mundo dos negócios convencional podem aprender com os desajustados?
Os gestores podem aprender muito sobre liderança e como criar espaço para o engenho e criatividade. Uma parte importante da gestão é permitir que as pessoas sintam que podem levar as suas paixões para o trabalho - que têm um lugar para testar ideias e crescer para além da sua descrição de trabalho. Os gestores podem aprender muito sobre o funcionamento de organizações numa base mais informal. Grupos de hackers, por exemplo, funcionam sem um grande grau de hierarquia. É um mundo sem chefias essencialmente. Muitas culturas de desajustados sabem como motivar as pessoas, não através do dinheiro, mas através do desafio, da reputação, da discrição e da emoção. E isto é algo que os gestores têm que se esforçar para oferecer - compreender as razões que levam as pessoas a ficarem motivadas para ir trabalhar.

Então acredita que podemos aplicar as suas práticas de gestão?
100%. Muitas empresas - principalmente grandes organizações burocráticas - perderam os seus instintos de "empreendedores agressivos". É importante para as empresas manterem uma mentalidade empreendedora e criarem espaço para os funcionários trazerem ideias novas, criativas e provocantes para o negócio. Mas muitas vezes a gestão está focada em manter o status quo e muitos "funcionários desajustados" sentem-se marginalizados. Criar subculturas seguras para novas ideias dentro das organizações mais antigas é realmente importante. Não se trata apenas de aprender com as startups ou os disruptivos na sua indústria, mas olhar para toda a energia de rutura e potencial que há dentro da sua instituição. Funcionários desajustados são importantes para manter a energia empreendedora dentro de um grande negócio.

 

"Funcionários desajustados são importantes para manter a energia empreendedora dentro de um grande negócio"


Sabe de alguma ideia "desajustada" no setor de tecnologia que possa ter servido de inspiração para a criação de outros negócios? Consideraria Napster um bom exemplo?

Muitas inovações tecnológicas que começaram de forma ilegal tornaram-se desde então parte da economia mainstream. Napster abriu o caminho para websites de partilha de arquivos como o iTunes, Spotify e Pandora. E inovações em streaming de vídeo na indústria porno estão agora a ser utilizadas pela Netflix, Amazon e Hulu. Também as criptomoedas como Bitcoin e Ethereum estão a começar a atrair o interesse dos agentes financeiros tradicionais.

Os portugueses são conhecidos por serem pessoas "desenrascadas". Conhece alguma história portuguesa que possa ser incluída nesta economia informal?
Adoro essa expressão. Também no Brasil, onde passei muito tempo, há desajustados assim, com esse espírito, esse "jeitinho", que é uma gíria usada para descrever improvisação. "Desenrascados" soa a algo que eu me identifico também. Acho que na economia portuguesa, como na Grécia e Espanha, há mais economia informal do que em outros países europeus. As pessoas têm que ser criativas na criação de empresas. Conheci vários jovens empresários em Lisboa e Porto, por exemplo, a trabalharem como freelancers e a tentar lançar startups. Há um grande cenário de coworking em Portugal, o que é uma importante infraestrutura para os desajustados.

Além do livro, também é autora de outros projetos: criou a League of Intrapreneurs, por exemplo. Pode falar sobre este projeto e outros em que esteja a trabalhar atualmente?
O meu maior interesse está na construção de comunidades de intenção e disrupção. Sobretudo no crescimento de redes para o negócio social. Cofundei a League of Intrapreneurs, por exemplo, que apoia funcionários de multinacionais que estão a tentar chamar a atenção para as preocupações ambientais e sociais no seu trabalho. Além disso, estou a fazer investigação em "tribal design", procurando por melhores práticas na construção de comunidades, movimentos e redes. O futuro é sobre comunidades e culturas que pretendem mudar o mundo. Gosto de pensar em práticas para "piratear" culturas antiquadas e equipar agentes de mudança - estejam em redes de base empresarial ou governamental - para transformar as culturas à sua volta. Eu trago uma perspetiva antropológica e de hacker para a estratégia de inovação.

 

"Muitas inovações tecnológicas que começaram de forma ilegal tornaram-se desde então parte da economia mainstream"


Ainda dá workshops com base na teoria apresentada em "The Misfit Economy".
O que os participantes podem aprender?

Nos workshops ensinamos como ser hábil como um gangster e a vender como um vigarista. Os vigaristas têm skills incríveis de vendedores, por isso acredito que é um workshop excelente para empreendedores e empresários que precisam melhorar a sua arte da persuasão. Também realizo workshops para intraempreendedores, ou equipas de pessoas dentro das empresas, que estão a tentar criar modelos inovadores e disruptivos para o seio onde trabalham.

Os desajustados são as pessoas mais inovadoras?
Acredito que sim. Quando sentimos que não pertencemos totalmente a uma estrutura tradicional ou a uma "sociedade de massas", de alguma forma, e naturalmente, temos de ter este mindset de outsider que nos dá um ponto de vista diferente e que significa que podemos trazer mais criatividade, criticidade e possibilidade a situações e contextos onde os outros são mais convencionais.

Considera-se uma pessoa desajustada?
Absolutamente. Sinto que agora sou mais desajustada do que quando escrevi o livro. Acredito que ter estado em contacto com desajustados de todo o mundo, nos últimos três anos, radicalizou-me um pouco. Desde o início deste projeto, por exemplo, não tive um trabalho tradicional das 9 às 17h. E não tenho medo de ser ousada e corajosa para expressar as minhas ideias e pontos de vista.

 

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