Bons Negócios

“Empresas costumam pedir um parecer para datas auspiciosas”

Experiência  |   26 Dez 2016

Licenciada em Design de Interiores, Raquel Dominguez é atualmente professora na Escola Nacional de Feng Shui. É ainda consultora desta prática oriental, dando conselhos e dicas de como devemos nos posicionar no espaço e na vida para beneficiarmos das energias positivas que a terra nos oferece. Não devemos sentar-nos de costas para a porta, não devemos ter a nossa secretária encostada à parede de ambos os lados. Pequenos detalhes, que muitos empresários no Oriente acreditam que pode ditar o sucesso de um negócio.

Já se ouviu falar muito em feng shui. Principalmente quando o assunto é decoração de interiores. Mas o que é na verdade feng shui?
Feng shui é tão simplesmente a arte de saber viver em harmonia com o ambiente em que nos inserimos, para que possamos ser afetados positivamente por ele. No fundo, é como o surfista que consulta o tempo e as marés antes de ir para o mar, para poder tirar o melhor partido dele. Assim, tal como a acupuntura estuda a energia presente no corpo humano, o feng shui estuda a energia presente nos espaços, tentando perceber como é que esta interage com a do ser humano. E mesmo que sejamos completamente céticos em relação a este tipo de conhecimento, a verdade é que há espaços onde nos sentimos bem e outros não (mesmo que não saibamos explicar bem porquê), tal como há espaços onde sentimos que somos mais produtivos e outros não. O facto de o feng shui estar associado à decoração de interiores já é outra história, pois essa relação é algo que só existe no Ocidente. Tudo começou no final dos anos 70. Um monge tibetano, Lin Yun - mais conhecido por monge do chapéu preto - pegou nos conceitos do feng shui clássico, incorporou elementos do "vastu" (o feng shui indiano), juntou as suas crenças e experiência enquanto monge, criando um método mais simples do feng shui. Este feng shui contemporâneo, por exemplo, divide a casa em oito setores - ao que chamamos de "ba gua" - e todos os setores têm um elemento. Um é a água, outro o fogo, outro a árvore... No norte da casa é a água, por exemplo, e por isso é normal ouvirmos dizer que nesta zona convém ter coisas do elemento água, para potenciar essa energia. No sul da casa devemos ter coisas do elemento fogo. É um feng shui muito mais simples, que nada tem a ver com o que se pratica no Oriente.

Qual o principal objetivo da prática do feng shui?
O objetivo do feng shui é dar-nos aquilo que o ser humano mais quer: dinheiro, saúde, relacionamentos felizes, poder. No Oriente, por exemplo, as pessoas querem poder e dinheiro...

Porquê poder e dinheiro?
Porque só pensam nisso. O mundo oriental é muito diferente do mundo ocidental. Apesar de no Oriente terem surgido práticas consideradas zen, como o budismo, a verdade é que cada vez mais se passa o contrário: nós estamos cada vez mais espiritualistas e eles materialistas. E a partir do momento em que as pessoas no Oriente se veem com uma ferramenta na mão, que lhes permite enriquecer, que lhes permite ficar com mais poder na sociedade, vão utilizá-la. O feng shui era utilizado pelos imperadores chineses para se manterem no poder, por exemplo. Por isso é que as suas famílias ficavam no comando durante anos.

A influência positiva do feng shui é notória em todas as pessoas?
Sim, é. Contudo, e pegando no exemplo do surfista, vai haver sempre pessoas que conseguem aproveitar melhor o mar do que outras. Tudo depende da nossa atitude.

Vivemos a maior parte do nosso tempo no escritório, no local onde trabalhamos. Aconselha também as empresas a aplicarem o feng shui nas suas instalações?
Sim. A produtividade e o sucesso da empresa também dependem disso. Porque é que em Macau, Hong Kong e Malásia abunda tanta prosperidade? Nestas zonas, os grandes empresários não dão um passo sem antes consultarem o seu mestre de feng shui. As empresas também costumam pedir um parecer para selecionar datas auspiciosas. Por exemplo, no Oriente se queremos fechar um negócio podemos pedir a um consultor de feng shui para nos indicar uma data favorável. Se queremos marcar um casamento podemos pedir a um consultor de feng shui para nos dizer qual a melhor data.

Pode dar alguns exemplos de empresas que já aderiram a esta prática oriental?
Apesar desta prática ser comum em Macau, Hong Kong e Malásia, como mencionei, a verdade é que ainda existe um grande secretismo à volta do feng shui aplicado às grandes empresas, pois não é do interesse dos grandes empresários que o "poder" e o "sucesso" sejam partilhados. Na verdade, só muito recentemente é que o feng shui "saiu cá para fora" (sobretudo para nós, ocidentais), apesar de ainda existir muita informação que os mestres orientais não partilham connosco. De qualquer forma, sabe-se que o Banco da China em Hong Kong, o templo Phor Kark See, em Singapura, e o Hotel Hyatt, também em Singapura, têm feng shui aplicado. Aliás, há uma história curiosa sobre este hotel. Em meados dos anos 70, a unidade hoteleira tinha uma taxa de ocupação muito baixa, perto de 40%. Chamaram um consultor de feng shui, que fez a sua avaliação e ativação de uma fonte existente no espaço, escolhendo uma data e hora auspiciosa para a pôr em funcionamento (às 10 horas da manhã). No mesmo dia, à tarde, o Hotel Hyatt recebeu um telefonema a informar que precisavam de quartos para 380 passageiros de um voo em atraso. A partir daí a taxa de ocupação foi evoluindo positivamente.

 

"O Banco da China em Hong Kong, o templo Phor Kark See, em Singapura, e o Hotel Hyatt, também em Singapura, têm feng shui aplicado"


Qual a zona mais importante de uma casa ou escritório?

Não é possível escolher uma zona dita "próspera" sem antes se efetuar uma avaliação do espaço seguindo o feng shui. Mas, podemos dizer que as portas e as janelas são muito importantes. As portas são o ponto principal por onde entra a energia que vai ditar, ou não, a prosperidade do espaço. Assim, se um espaço tiver uma energia positiva, ao entrarmos e sairmos, vamos estar sempre a ativá-la. Um pormenor: ter um prédio com uma esquina a apontar para a nossa casa não é bom.
Aconselha a ter algum objeto específico no escritório para atrair sucesso?
Não. Não é o feng shui que pratico... Contudo, na prática do feng shui é comum utilizarem-se fontes de água ou aquários em sítios estratégicos, para se ativar a energia que lá se encontra.

A secretária de um CEO, por exemplo, como deve estar posicionada numa sala?
O ideal é trabalharmos o mais ao fundo da sala possível, e de costas para uma parede, visualizando assim o espaço todo. A ideia de conseguirmos "controlar" o espaço, sobretudo quem entra e sai, é aqui muito importante. A isto dá-se o nome de "posição de poder". Devemos estar de costas protegidas, para não sermos apanhados desprevenidos. Caso contrário, se estivermos de costas para a porta, por exemplo, ficamos numa posição vulnerável. Se repararmos, quando existe uma mesa de reuniões grande e retangular, o CEO da empresa senta-se sempre no extremo mais longe da porta. Já o último lugar a ser tomado é sempre aquele que se encontra ao pé da porta e de costas para a mesma. As cadeiras dos chefes como são, normalmente? De costas altas. E a dos reis? Também. Para dar a sensação de proteção e segurança.

 

"O ideal é trabalharmos o mais ao fundo da sala possível, e de costas para uma parede, visualizando assim o espaço todo"


De acordo com um estudo da Universidade de Exeter, ter plantas no escritório aumenta a produtividade dos colaboradores em 15%. O feng shui também defende o poder das plantas nas nossas vidas. Quais os principais benefícios?

Quando precisamos de "recarregar baterias" o que é que costumamos fazer? Vamos para o meio da natureza (seja praia, campo, ou outro), daí a ideia das "casas de férias". Estar num ambiente o mais "natural" possível dá-nos uma sensação de conforto e bem-estar maior do que qualquer ambiente "artificial" construído pelo ser humano. É por isso que tentamos trazer um pouco da natureza para dentro de casa, através do uso de plantas.

Trabalhamos num escritório organizado, mas se não tivermos uma casa organizada, não há um equilíbrio. É necessário que estes dois mundos estejam em harmonia?
Sim. É um pouco contraproducente estarmos a trabalhar num espaço que nos beneficia positivamente, se depois em casa não se passa o mesmo. Por exemplo, se o escritório da minha empresa tiver um bom feng shui, mas a minha casa não, não é aconselhável tratar da gestão do negócio em casa.

Como surgiu o seu interesse por feng shui?
Depois de terminar a minha licenciatura em Design de Interiores, decidi estudar feng shui porque achava que era um bom complemento à minha formação e acreditava, tal como a maioria das pessoas, que ambos estavam relacionados. Depois, durante o curso, apercebi-me de que, para além do feng shui não ter nada a ver com pintar paredes ou colocar este ou aquele "bibelot" num sítio específico, o seu poder é muito maior do que aquilo que imaginamos. Contudo, a paixão por esta arte veio assim que percebi que podia utilizar o feng shui como ferramenta de autoconhecimento e de desenvolvimento pessoal. Hoje sou consultora de feng shui, dou aulas na Escola Nacional de Feng Shui e ministro palestras e workshops próprios.

 

4 DICAS FÁCEIS E RÁIDAS PARA CRIAR UM ESPAÇO DE TRABALHO MAIS EQUILIBRADO
1. Coloque-se na chamada "posição de poder", isto é, ao fundo da sala com as costas viradas para uma parede, para que possa ter um controlo do espaço todo, sobretudo da porta de entrada.
2. Um espaço organizado ajuda a ter uma mente organizada, para além de não distrair a nossa atenção no que estamos a fazer.
3. Quanto mais "tralha" tiver no seu espaço, mais Yin este vai ficar. Num espaço de trabalho queremos pessoas (e mentes) mais ativas, ou seja, mais Yang.
4. Tenha a sua secretária desencostada da parede de ambos os lados. Em feng shui cada um dos nossos lados tem uma função muito específica (tal como tem cada um dos lados do nosso cérebro), e ao "bloquear" um deles vai estar a desperdiçar essa energia.

 

Partilhe este artigo

Comentários  |  0 Comentários

Máximo 600 caracteres | Política de Comentários

Submeter
Subscrever Newsletter