Bons Negócios

“A cultura digital é fundamental e os gestores que não derem esse passo terão dificuldades acrescidas no futuro”

Experiência  |   01 Set 2017

A Deloitte foi um dos parceiros estratégicos na elaboração do programa Indústria 4.0 - Estratégia Nacional para a Digitalização da Economia, lançado no início do ano pelo governo português. E por isso, sabe bem de perto quais são as preocupações maiores das empresas e empresários face a esta revolução digital. A falta de capital humano especializado e a falta de cultura digital, por exemplo. Mas, para António Lagartixo, partner da Deloitte, estas dificuldades não podem ser encaradas como um entrave para o progresso. Afinal, não haverá um retrocesso. Aconselha, então, os gestores a apostarem na formação e na cultura digital das suas empresas. Os benefícios que podem obter no futuro? Uma maior eficiência das suas operações, um relacionamento mais próximo com os clientes, novas fontes de receitas, e um ambiente de trabalho mais propenso à inovação.

Estudos recentes indicam que a percentagem de empresas a lançar iniciativas de transformação digital será de 50% em 2020 e que 67% dos CEO centrará a sua estratégia nessa transformação, de acordo com o documento elaborado no âmbito da Iniciativa Portugal i4.0. Na sua opinião, as empresas portuguesas vão conseguir acompanhar esta evolução? Em que posição Portugal se encontra atualmente nesta revolução digital?
As empresas portuguesas apresentam níveis de preparação diferentes para a quarta revolução industrial, dependendo do setor económico, dimensão ou contexto onde se inserem. No entanto, e de um modo geral, Portugal apresenta bons índices de preparação e de condições para acompanhar esta revolução, até porque é notório que o tema da transformação digital está completamente na agenda da maioria das nossas empresas e dos seus CEO.

A Deloitte participou na definição da Estratégia Nacional para a Digitalização da Economia. Quais as principais necessidades que identificaram e os grandes desafios para as empresas portuguesas na transformação digital dos seus negócios?
No trabalho desenvolvido pela Deloitte, a principal necessidade identificada está relacionada com o capital humano. Os empresários reconhecem que a crescente rapidez de alteração de tecnologias, processos produtivos e modelos de negócio requer um sistema de ensino com grande flexibilidade e empresas com capacidade para formar e reconverter os seus colaboradores ao longo do seu percurso de trabalho. Esta necessidade é ainda mais premente ao nível das PME, onde existe uma menor capacidade de atrair e reter talento. Para além do fator humano, foi também realçada a necessidade de melhorar o ecossistema de investigação, desenvolvimento e inovação, melhorando a forma como as empresas colaboram entre si, com o meio académico e com os centros tecnológicos, para reduzir a incerteza e canalizar o investimento em conhecimento para as necessidades da economia.

Quais as grandes vantagens da transformação digital para as empresas?
De acordo com um estudo desenvolvido pela Deloitte em conjunto com o MIT, as empresas líderes na digitalização encaram esta nova revolução de uma forma abrangente, procurando vantagens além do nível do custo ou do contacto com o cliente. Efetivamente, uma empresa que integre a transformação digital como parte da sua estratégia, para além de gerar uma maior eficiência nas suas operações e de criar um relacionamento mais próximo e customizado com os seus clientes, poderá criar novos modelos de negócio e fontes de receita, gerar maior sustentabilidade no consumo de recursos e criar um ambiente de trabalho mais propenso à inovação.

A eliminação de postos de trabalho ou os ciberataques são duas das maiores preocupações dos empresários, por exemplo. Além destes riscos, nesta transição para o digital, há outros?
A economia e as sociedades estão a viver uma evolução que não terá retrocesso e isso acarreta novos riscos e incertezas. Quando se criam novos modelos sociais e de negócio é natural que surjam novos riscos, algo que sempre aconteceu na nossa história, mas que não deve ser um entrave ao progresso. Hoje temos a certeza que vamos ter um mundo mais baseado em dados e transações digitais, o que naturalmente requer maior confiança nos processos e sistemas de suporte, que só será possível criando novos mecanismos de proteção e reação, adequados à nova realidade. Uma área apontada como crítica nesta revolução digital são os postos de trabalho que podem ser eliminados ou transformados. Ao longo dos tempos, com o desenvolvimento tecnológico, o homem foi alterando a forma de acrescentar valor ao seu trabalho. Nesta fase, o mais importante é perceber onde vai estar o valor acrescentado da economia digital, garantir que nos preparamos de forma antecipada para as novas necessidades do futuro, ajustando os currículos formativos e académicos e conduzindo os nossos jovens para áreas de desenvolvimento profissional ajustadas à procura cada vez mais digital.
Acrescentaria um terceiro risco: o do investimento prematuro versus a obsolescência por não investir. Os empresários e gestores debatem-se atualmente com o dilema de iniciar um processo de investimento em novas tecnologias e ser eficiente nos investimentos que são feitos. Uma boa parte do processo de transformação digital implica um grande nível de incerteza, o que quer dizer que o papel dos gestores na análise assertiva dos seus investimentos poderá fazer a diferença na rentabilidade e sustentabilidade dos seus negócios no futuro.

Estima-se que a indústria 4.0 terá um impacto direto em 54% dos empregos existentes. O desenvolvimento de competências digitais é fundamental?
No futuro existirá uma procura muito maior por competências ligadas à criatividade e à computação de dados. As competências na área do design, customer experience ou relacionadas com o desenvolvimento de tecnologias de informação e data science terão uma preponderância muito maior do que o clássico trabalho administrativo ou de operações. Estando conscientes disso, os empresários e gestores devem apostar num misto de reconversão dos seus atuais colaboradores, através de formação, e na contratação de novos recursos especializados.
No trabalho desenvolvido pela Deloitte, nas interações que tivemos com os empresários e gestores que participaram na Iniciativa Portugal i4.0, ficou bem clara esta preocupação. Face à velocidade com que o desenvolvimento tecnológico está a ocorrer, o país deve tomar medidas que abranjam todos os ciclos da formação académica e profissional e garantir a formação e a requalificação dos profissionais que atualmente desempenham funções em áreas que terão um declínio no futuro próximo. Foi com este propósito que foram identificadas 22 medidas focadas no capital humano na Iniciativa Portugal i4.0.

"Os empresários e gestores devem apostar num misto de reconversão dos seus atuais colaboradores, através de formação, e na contratação de novos recursos especializados"

Como uma empresa pode estar a par das novas tecnologias? Participando em feiras tecnológicas, em formações?
O processo de atualização tecnológica é complexo e será diferente consoante o tipo de empresa e setor de que estamos a falar. Sem dúvida que todos devem manter-se informados através da participação em fóruns nacionais e internacionais (feiras, conferências, seminários). Mas isso não é suficiente. É também necessário analisar como se pode integrar essa informação nas organizações, de forma eficiente. Neste contexto, o papel das associações setoriais é fundamental, em particular para as PME com menor capacidade de aceder de forma individual a este conhecimento.

Quais as novas tecnologias mais importantes nesta revolução digital, na sua opinião, e que devem ser adotadas pelas empresas?
Existe atualmente um vasto conjunto de novas tecnologias, contudo a resposta a esta questão depende de diversos aspetos, como o setor de atividade da empresa, a sua dimensão, entre outros. No entanto, existem traços comuns aos diversos setores e segmentos de atividade, os quais será fundamental trabalhar no âmbito das novas tecnologias, nomeadamente as que estão ligadas à mobilidade, à interação com os clientes e ao aumento da produtividade dos processos internos.

As empresas que ainda não ingressaram por esta transformação digital é por falta de investimento, conhecimento? Falta de cultura digital?
Acho sinceramente que é um pouco dos três. A cultura digital é fundamental e os gestores que não derem esse passo terão dificuldades acrescidas no futuro. Por outro lado, também é sabido que uma boa parte das empresas portuguesas apresenta fragilidades de capital que não lhes permitem fazer alguns investimentos estruturais de renovação tecnológica. Neste contexto, é fundamental fazer as escolhas certas e contar com o ecossistema de cooperação, incentivo e financiamento.

Muitas empresas portuguesas não têm uma presença online. Nem uma loja online. Considera que essas empresas estão em risco, independentemente do seu setor e atividade?
Hoje é essencial e básico para qualquer negócio estar online. De facto, a economia digital é uma realidade e não vale a pena achar que é um processo que passará ao lado de algumas empresas. Por isso, é fundamental que as empresas que ainda não estão online façam esse caminho rapidamente, porque será um processo de aprendizagem. Não estar online é sinal de alguma falta de cultura digital por parte dos gestores.

Qual, na sua opinião, é a medida da Estratégia Nacional para a Digitalização da Economia mais importante? Ou interessante?
A Estratégia Nacional para a Digitalização da Economia é importante essencialmente pelo movimento integrado de iniciativas que inclui. No entanto, acho que têm particular relevância as iniciativas que promovem a cooperação entre as empresas e o restante ecossistema do conhecimento. É um tema de futuro e estrutural que funcionará como acelerador de muitas outras iniciativas.

Considera então a cooperação tecnológica entre empresas importante para que a transformação digital do tecido empresarial português seja bem-sucedida?
Esta cooperação é fundamental e não deve ser só entre empresas. Um ecossistema dinâmico e eficaz de transferência de conhecimento e tecnologia, que envolva universidades, empresas e centros de interface tecnológico, é fulcral para o desenvolvimento das empresas. Permite a partilha de riscos e investimentos, o acesso facilitado a inovação e tecnologia e a disseminação de melhores práticas.

"O relevante não será a mera digitalização, mas perceber como o digital pode funcionar como impulsionador do negócio nas suas diversas vertentes"

Quais são as suas expectativas para este programa?
As expectativas são altas, uma vez que se trata de um programa estruturante para o nosso País. A transformação digital e a forma como o País vai fazer esta mudança condicionará as gerações futuras e a riqueza gerada na sociedade. Por isso, ambiciono que este programa seja um elemento agregador e catalisador dos esforços das várias instituições públicas e privadas, cujas atribuições e iniciativas são importantes para capacitar melhor a nossa economia e sociedade para a quarta revolução industrial.

Quem não se adaptar à digitalização, o que lhes vai acontecer? É uma questão de vida ou de morte para qualquer negócio?
Não diria que é uma questão de vida ou de morte para qualquer negócio, mas sem dúvida que é crítico evoluir e progredir no digital. Como outras revoluções no passado, a quarta revolução industrial veio para ficar e em breve será o status quo. O mais provável é que quem não acompanhar ficará forçosamente mais para trás. No entanto, é importante lembrar que o valor não está apenas no digital, pois subsistem outros fatores críticos para os negócios. O relevante não será a mera digitalização, mas perceber como o digital pode funcionar como impulsionador do negócio nas suas diversas vertentes.

Partilhe este artigo

Comentários  |  0 Comentários

Máximo 600 caracteres | Política de Comentários

Submeter
Subscrever Newsletter